quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Lagos assinou Protocolo de Cooperação com a Comissão Nacional da UNESCO

Núcleo Museológico do Mercado de Escravos foi inaugurado

A Câmara Municipal de Lagos e a Comissão Nacional da UNESCO celebraram, recentemente, um Protocolo de Cooperação com vista à criação do Centro UNESCO de Lagos.




O protocolo foi assinado pelos Presidentes da Câmara Municipal de Lagos e da Comissão Nacional da UNESCO, Júlio Barroso e Embaixador Fernando Andresen Guimarães, respectivamente. Esta iniciativa decorreu no 1º dia de trabalhos do Colóquio Internacional “A Herança do Infante”, iniciativa que integrou o VI Festival dos Descobrimentos.
A decisão foi tomada tendo em conta, entre outras razões, o facto da UNESCO (Agência especializada das Nações Unidas para a Educação, Ciência, Cultura e Comunicação) recomendar o desenvolvimento de parcerias, a nível nacional, entre as Comissões Nacionais da UNESCO e as instituições do Estado e da sociedade civil que prosseguem objectivos coincidentes com as áreas do seu mandato; o facto do Município de Lagos assumir-se como Cidade dos Descobrimentos, numa referência histórica às viagens de exploração lançadas pelo Infante D. Henrique a partir do barlavento algarvio as quais conduziram à abertura e globalização do mundo e o facto do Município ter desenvolvido actividades culturais relacionadas com a memória histórica e com o património cultural emergentes dos contactos que, desde então, os portugueses estabeleceram com outros povos e culturas não europeus.
Para o Presidente da Comissão Nacional da UNESCO, Fernando Andresen Guimarães, foi uma “satisfação assinar este protocolo para a abertura do Centro UNESCO de Lagos, até pelo passado histórico deste concelho”. Falando a propósito do tema discutido anteriormente no Colóquio, «História de um arrabalde durante os séculos XV e XVI: do“Poço dos Negros” à Gafaria de Lagos», o Embaixador voltou a relembrar a forma como os povos de então lidavam com a lepra, com a escravatura e com a questão das gafarias. Para o responsável da Comissão Nacional da UNESCO “é importante que Lagos assuma este passado uma vez que foi muito relevante para a história da cidade”. E a este propósito referiu a exposição, que estará patente no Núcleo Museológico de Lagos e que integra o Projecto “Rota do Escravo” da UNESCO.
Para o Presidente da Câmara Municipal de Lagos, este Protocolo significa “uma grande honra para Lagos ter sido escolhido por este parceiro para termos um Centro UNESCO. Lagos é uma cidade que não enjeita a sua história, ainda que nem tudo tenham sido rosas. Mas no tempo histórico em que tudo aconteceu Lagos brilhou no horizonte e é isso que se pretende dar a conhecer melhor”. E como referiu Júlio Barroso, “trabalhar em parceria com a UNESCO, que tem o seu nome reconhecido a nível nacional, é uma das melhores formas para o conseguir”.
O autarca terminou a sua breve intervenção expressando o desejo de que “este Centro UNESCO de Lagos seja uma satisfação para todos”, deixando a certeza de que “a autarquia tudo fará para dinamizar este espaço”.
De acordo com Protocolo assinado, e entre outras obrigações, a Câmara Municipal propõe-se criar um Centro UNESCO vocacionado para a abordagem histórica e cultural das relações estabelecidas entre Portugal e o Mundo, no passado, e suas representações nos tempos de hoje, que terá a sua sede no Edifício da Janela Manuelina.
Por seu turno, e em consonância com os princípios enunciados no Acto Constitutivo da UNESCO, serão atribuições do Centro UNESCO de Lagos colaborar ou cooperar com instituições locais, regionais ou internacionais, nas acções e realizações que têm ligação com os objectivos da UNESCO; suscitar e encorajar a defesa dos valores proclamados pela UNESCO, procurando e promovendo os meios eficazes para o efeito e contribuir para a promoção do exercício de uma cidadania mais consciente e participativa em torno das questões ligadas à liberdade e ao respeito da diversidade das expressões culturais, através da organização de exposições, da edição de materiais em suportes vários, apresentação e discussão de filmes e debates temáticos.
No final da cerimónia todos os presentes foram convidados a participar na Inauguração do Núcleo Museológico de Lagos, localizado na Praça do Infante, e que se encontra agora aberto ao público todos os dias (excepto segundas e feriados), das 9h30 às 12h30 e das 14h às 17h.


Núcleo Museológico do Mercado dos Escravos

Na exposição agora patente neste Núcleo Museológico procura-se explorar, culturalmente, a ligação de Lagos «dos Descobrimentos» à história do tráfico negreiro. São igualmente divulgados os dados históricos, relatados nas fontes documentais e enriquecidos pelos testemunhos recuperados nas escavações arqueológicas efectuadas no Parque de Estacionamento do Anel Verde. As paredes apresentam acabamentos diferentes: em dourado simbolizam o poder da coroa, responsável pelas empresas marítimas, o lucro obtido pelo comércio; em vermelho o sofrimento de quem é retirado violentamente do seu meio social e trazido para a Europa para fazer um percurso indigno de vida e de morte; em cartão de embalagem o tráfico de mercadorias, Lagos como entreposto comercial de uma Nova Era.
Esta exposição, que conta com o apoio do Centro Nacional da UNESCO e do Projecto “Rota do Escravo” da UNESCO, pretende mostrar: a inserção da escravatura no novo contexto económico das viagens de descobrimento da costa ocidental africana a Sul do Bojador; o escravo como mercadoria (incorporado nas tarefas quotidianas mas descartado sem dignidade); o fascínio pelo exótico no quotidiano dos lacobrigenses: evidenciado no gosto por consumir e possuir novos produtos e objectos que as viagens transoceânicas permitem [cerâmicas dos séc. XV-XVI, de Espanha, Itália, China,...] e a assimilação dos escravos negros pela sociedade da época: baptismo.
Exposição / Núcleos:

O contacto com a África sub-saariana
- Instalação alusiva aos 230 escravos negros da primeira leva de escravos africanos vendidos em Lagos na Era dos Descobrimentos. A madeira simboliza o porão do barco em que foram trazidos, correspondendo um escravo a cada uma das 230 cordas.
- Instalação com caixas de madeira: contêm os produtos africanos aos quais passámos a ter acesso desde que se iniciou a exploração comercial da costa ocidental africana.
- O fascínio pelo exótico sub-saariano permaneceu desde a Era dos Descobrimentos: espada cerimonial, esculturas de negros em madeira e uma presa de elefante. As peças procedem do Museu Municipal de Lagos.

O escravo como mercadoria
Aqui se apresentam moedas da Era dos Descobrimentos, com destaque para um pequeno tesouro escondido, e perdido, bem como objectos descartados na lixeira do Vale da Gafaria e recolhidos nas escavações arqueológicas: o esqueleto de um escravo negro (que depois de morto foi tratado como coisa sem utilidade), adornos inúteis e restos de loiças partidos.
A integração dos pretos e a evocação da memória da escravatura
Um espaço limpo, branco, que simboliza a progressiva incorporação dos antigos escravos na sociedade. Os pretos continuaram a desempenhar as tarefas que ninguém queria fazer, mas já eram aceites socialmente por terem sido baptizados, abraçando assim a religião dominante.
A Rota do Escravo é um projecto da UNESCO que pretende contribuir para o conhecimento da realidade do tráfico de escravos, e das suas múltiplas consequências, ao longo dos séculos. Simultaneamente, ao destacar o intenso movimento de trocas entre povos, culturas e civilizações a que o tráfico de escravos deu origem, o projecto pretende contribuir para um activo diálogo intercultural entre as áreas geográficas tocadas pela escravatura, bem como para uma cultura de paz e coexistência pacífica entre os povos.
Recorde-se que, a partir de 1444, Lagos passou a receber todos os anos carregamentos regulares de escravos, que eram normalmente capturados em razias ou adquiridos por troca na costa ocidental de África. Utilizados em trabalhos pesados e em tarefas domésticas, os escravos africanos, a partir de então, passaram a fazer parte da paisagem humana portuguesa, que marcarão de forma profunda. O edifício do Mercado de Escravos, em Lagos, perpetua a memória desse tráfico de seres humanos, que também abastecia outras regiões portuguesas, e que estaria centralizado na Casa da Guiné, em plena zona ribeirinha.